Por José Goldemberg e Cristiane Cortez*
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pela elevação anormal da temperatura das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação das correntes marítimas e influencia o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta. Durante sua ocorrência, os ventos alísios enfraquecem, permitindo uma concentração maior de águas quentes no centro e no leste do Pacífico.
Embora faça parte da variabilidade natural do clima, o que preocupa atualmente é sua interação com um planeta cada vez mais quente. Estudo recente publicado na revista Science , com base em registros de corais das Ilhas Galápagos, indica que os El Niño atuais estão, em média, 36,5% mais intensos que no período pré-industrial. Há ainda uma relação de mão dupla: as mudanças climáticas podem intensificar o El Niño, enquanto o próprio fenômeno pode contribuir para agravar o aumento da temperatura global.
No Brasil, seus efeitos incluem ondas de calor, chuvas torrenciais e enchentes (em algumas regiões) e secas, baixa umidade e pressão sobre os reservatórios (em outras). Para uma empresa, porém, a ameaça climática não termina na porta do estabelecimento. Uma enchente distante pode interromper uma rodovia, paralisar um fornecedor e impedir a chegada de mercadorias. Uma seca prolongada pode comprometer os fornecimentos de água e energia e a disponibilidade de matérias-primas.
Por isso, a adaptação climática precisa entrar definitivamente no planejamento empresarial. Não se trata apenas de uma pauta ambiental ou de ESG, mas de gestão, proteção do patrimônio e continuidade do negócio. Mapear instalações, fornecedores e rotas vulneráveis, avaliar a dependência de insumos essenciais (como água e energia), prever alternativas de abastecimento, revisar seguros e contratos e estabelecer responsáveis e protocolos para emergências são medidas capazes de reduzir vulnerabilidades e exposição a riscos.
A experiência de organizações atingidas por eventos extremos mostra que improvisar durante uma crise custa mais caro. Recursos reservados, responsabilidades previamente definidas e redes de parceiros permitem respostas mais rápidas e reduzem danos às pessoas e às operações.
A adaptação também precisa avançar no âmbito das políticas públicas. O Plano Clima Adaptação — Cidades já apresenta um diagnóstico das vulnerabilidades urbanas, identifica as principais ameaças climáticas aos municípios brasileiros e propõe ações intersetoriais. Governos locais também vêm avançando nessa agenda, com iniciativas para incorporar a adaptação climática ao planejamento, como ocorre em Gramado (RS) e Petrópolis (RJ). Do mesmo modo, o setor privado precisa fazer a sua parte, incorporando esses riscos às decisões e aos planos de contingência e de continuidade dos negócios.
Preparar-se para o El Niño não significa prever exatamente onde ocorrerá a próxima enchente ou seca. Implica reconhecer que o clima já integra a matriz de riscos empresariais. A antecipação permite às empresas proteger pessoas, reduzir perdas e ampliar sua capacidade de manter as operações diante do próximo evento extremo.
* Respectivamente, presidente e assessora do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
Artigo originalmente publicado no *jornal Diário do Comércio* em 14 de setembro de 2026.


