Trabalho desenvolvido por professor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação aborda as possibilidades e os limites das novas ferramentas para artistas e profissionais da área

[](https://www.ufms.br/wp-content/uploads/2026/11/refik-anadol-christies.jpg)Em 2025, uma das mais tradicionais casas de leilões do mundo – a Christie’s – colocou a inteligência artificial definitivamente no centro do debate sobre arte. A exposição Augmented Intelligence reuniu trabalhos de pioneiros da arte computacional e artistas contemporâneos, entre eles, Harold Cohen, Refik Anadol e Pindar Van Arman. A arrecadação com a venda dos 34 lotes passou a casa dos R$ 4 milhões. O destaque foi o quadro Machine Hallucinations – ISS Dreams – A de Refik Anadol que foi arrematado por R$ 1,5 milhão. O episódio é apenas uma das manifestações de uma transformação que levanta questões sobre criação, autoria, originalidade, ética e até sobre o que significa ser artista.

Foi justamente o surgimento das ferramentas capazes de gerar imagens que despertou a curiosidade do professor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc) Joaquim Sérgio Borgato e deu origem à pesquisa A inteligência artificial como ferramenta criativa na arte contemporânea.

“O grande alarde propagado pela mídia em geral pelo surgimento da IA geradora de imagens provocou em mim muita curiosidade sobre as dimensões e potencialidades nas artes visuais”, conta.

A pesquisa investigou as possibilidades criativas oferecidas pela IA e seus impactos sobre a arte contemporânea. No início, a tecnologia parecia representar uma ameaça aos artistas. Borgato compara esse momento ao que ocorreu com o surgimento da fotografia, no século 19. Com o tempo, porém, percebeu que cada linguagem encontra seu espaço.

A arte contemporânea, lembra o pesquisador, utiliza tecnologias digitais há muito tempo, e as ferramentas de IA passam a integrar esse universo como mais um recurso para o desenvolvimento da produção artística.

“Acredito que estamos apenas diante de uma nova ferramenta. A criatividade é uma capacidade humana em que as máquinas apenas podem simular a partir de dados coletados e produzidos por milhões de seres humanos”, afirma.

Segundo o professor, as ferramentas mais utilizadas no momento são: Grok, Chatgpt e Deepseek.

“Há uma verdadeira guerra entre os Estados Unidos e a China na corrida pelo desenvolvimento dessas tecnologias”, lembra.

O tempo da criação

Entre os diferenciais das novas ferramentas está a capacidade de executar em poucos minutos tarefas que anteriormente poderiam demandar muito mais tempo e conhecimento técnico. A partir de comandos escritos, é possível produzir imagens estáticas ou em movimento, por exemplo.

A rapidez, entretanto, revelou durante a pesquisa uma contradição.

“Essa facilidade é ao mesmo tempo um aliado e um balde de água fria no processo criativo”, diz Borgato.

Durante os dois anos do estudo, os estudantes de Artes participantes demonstraram pouco interesse pelo uso desses recursos, apesar dos estímulos realizados ao longo do projeto.

Na avaliação do professor, uma possível explicação está justamente na velocidade oferecida pela tecnologia. A ferramenta reduz o intervalo entre imaginar e executar, retirando parte daquele tempo tradicionalmente dedicado à elaboração da ideia.

“Tirou o tempo necessário para gestar uma ideia e produzi-la, algo extremamente humano”, observa.

[](https://www.ufms.br/wp-content/uploads/2026/11/artes-leo.jpg)A experiência do estudante Léo Yutaka Okishima Hashimoto ajuda a dimensionar também os limites encontrados no uso dessas ferramentas. Para testar a geração de imagens, ele pediu ao Gemini que produzisse a cena de um gato olhando pela janela no estilo de Edward Hopper. O primeiro resultado chegou a superar suas expectativas, mas as dificuldades apareceram quando tentou interferir na imagem.

“Ao tentar fazer mudanças, a IA começou a ter dificuldades, fazendo alterações mínimas em uma mesma imagem quando eu pedia que gerasse outra com características totalmente diferentes”, relata.

Segundo o estudante, sucessivas tentativas também nem sempre aproximavam o resultado daquilo que havia imaginado.

“Quanto mais eu pedia para parecer uma pintura do artista, menos se parecia com uma pintura, principalmente olhando para o gato, e, quanto mais alterações eram desejadas, menos a imagem parecia mudar.”

Para Léo, a experiência mostrou que a ferramenta consegue responder aos comandos, mas nem sempre compreende adequadamente a intenção de quem os escreve.

“De modo geral, a IA parece, sim, ter a capacidade de gerar o que lhe é pedido, mas a falta de ‘consciência’ faz seu entendimento ser falho, acabando por gerar imagens que não alcançam as expectativas ou que não compreendem da forma certa o que foi escrito no prompt.”

As experiências práticas acabaram sendo poucas, mas o resultado também se tornou uma constatação da pesquisa. No campo teórico, o grupo discutiu questões relacionadas principalmente à ética e à maneira como empresas de inteligência artificial utilizam dados e conteúdos produzidos por artistas.

Isso não significa, segundo Borgato, negar as possibilidades abertas pela tecnologia. Em linguagens como videoarte, videoperformance e fotografia, a IA pode desempenhar papel importante, inclusive por reduzir a necessidade de conhecimentos avançados de informática e tornar determinados processos mais acessíveis em termos de custo.

[](https://www.ufms.br/wp-content/uploads/2026/11/image_e489fdc6-e1793797978726.jpg)Ainda é cedo, porém, para afirmar que a tecnologia tenha provocado mudanças estéticas consolidadas.

“Creio que, com o tempo, com mais artistas utilizando essas tecnologias, poderemos ter melhor compreensão”, afirma.

A pesquisa também não identificou, até o momento, uma tendência predominante entre os artistas contemporâneos que trabalham com esses recursos.

Do entusiasmo à frustração

O próprio olhar do pesquisador sobre a tecnologia se modificou ao longo do projeto. Borgato conta que iniciou o estudo bastante entusiasmado com o que define como perspectivas “quase mágicas” da produção de imagens com grande qualidade e rapidez.

A experiência prática trouxe outra percepção.

“Com o tempo veio a frustração e a constatação de que, na arte, a sensibilidade e a emoção, exclusivas até o momento ao ser humano, não podem ser substituídas por nenhuma tecnologia”, afirma.

Para ele, estamos diante de algo ainda muito recente e que precisa ser compreendido antes que seja possível dimensionar todas as suas consequências para o campo artístico. Esse processo poderá resultar, inclusive, em novas maneiras de fazer arte.

Mas Borgato estabelece uma distinção fundamental entre o funcionamento das máquinas e a criação humana.

“A IA não cria, ela simula. Até o momento, a criatividade é exclusividade humana, demasiadamente humana”

.

Isso não impede que a inteligência artificial faça parte do processo criativo. Quando o artista elabora comandos, seleciona resultados, interfere nas imagens e constrói uma obra a partir deles, a tecnologia pode ser incorporada à produção artística. Nesse contexto, segundo o pesquisador, é possível trabalhar com a ideia de coautoria.

Mais que um comando

Ter acesso a uma plataforma capaz de gerar imagens não transforma automaticamente uma produção em obra de arte. Para Borgato, um elemento permanece indispensável: o repertório.

“Qualquer um pode gerar imagens com o uso da IA e isso pode ser suficiente para um leigo, mas uma obra de arte só tem peso e valor quando o sujeito está abastecido de conhecimento, sensibilidade e desejo de criar algo novo”, ressalta.

A ferramenta, portanto, não define a arte. O artista é que precisa mobilizar conhecimento e sensibilidade para utilizá-la. Borgato lembra que pintores continuarão trabalhando com pincéis, tintas e telas; escultores, com os materiais que escolherem; e artistas visuais poderão incorporar IA e outras tecnologias às suas produções.

A comparação com a fotografia volta a ajudar a compreender o momento atual. Quando ela surgiu, acreditou-se que poderia significar o fim da pintura. Isso não aconteceu. Em vez disso, consolidou-se uma nova forma de expressão artística. Para o professor, há espaço para diferentes linguagens e ferramentas.

O avanço da IA também recoloca em discussão outro conceito historicamente associado às artes: a originalidade. Na avaliação de Borgato, ela é cada vez mais difícil de alcançar. “O que existe é inovação, novas formas de interpretação do que já foi feito”, diz.

Uma estética artificial?

Algumas características da produção feita com inteligência artificial já começam, entretanto, a ser reconhecidas. Borgato chama atenção especialmente para os vídeos integralmente produzidos por IA que circulam em plataformas digitais, com vozes artificiais e estruturas de roteiro semelhantes.

A facilidade de produzir imagens, textos, músicas e vídeos também traz o risco de padronização e de uma produção excessiva de conteúdos. O impacto já pode ser observado com maior intensidade no audiovisual, segundo o pesquisador.

Roteiros produzidos por inteligência artificial, vozes sintéticas utilizadas em substituição a dubladores e reproduções digitais de pessoas e artistas são alguns exemplos.

“No campo da produção de vídeo, o Youtube está recheado de vídeo totalmente realizados com IA, os chamados darkvídeos. É uma estética falsa com vozes artificiais e com um roteiro muito parecido. Esse fenômeno já preocupa as empresas de plataformas de vídeo”, afirma.

Na música, o professor também identifica mudanças importantes, com trabalhos produzidos integralmente por IA chegando às plataformas mesmo quando seus responsáveis não possuem formação musical.

“A polêmica é grande. Essas produções têm provocado sérios problemas no mundo das artes. Ao mesmo tempo, é tudo novo, em processo de acomodação e, principalmente, de regulação por órgãos competentes”, afirma.

[](https://www.ufms.br/wp-content/uploads/2026/11/image_80d34dda.jpg)Autoria e ética

As possibilidades criativas caminham lado a lado com dilemas éticos. Um dos princípios básicos, para Borgato, é a transparência: trabalhos produzidos com inteligência artificial devem ser identificados dessa maneira e receber os créditos correspondentes.

O debate torna-se mais complexo quando envolve direitos autorais, utilização de obras de terceiros para treinamento dos sistemas, apropriação de estilos e formas de reconhecimento ou remuneração dos artistas. Durante a pesquisa, essas questões ocuparam espaço importante nas discussões teóricas.

Para o professor, trata-se de um tema ainda em construção e que envolve também os interesses das grandes empresas responsáveis pelo desenvolvimento dessas tecnologias. A coleta massiva de dados e sua utilização pelos sistemas digitais ampliam o debate para além do universo artístico e envolvem a maneira como conteúdos e informações chegam às pessoas.

Nesse ambiente, acredita Borgato, o desafio do artista contemporâneo é encontrar formas de sobreviver profissionalmente sem abrir mão da própria autenticidade.

Os efeitos também não são iguais para todas as áreas. O pesquisador enxerga riscos mais imediatos para profissionais como ilustradores, designers e publicitários. A percepção vem também de sua própria trajetória: há 42 anos trabalhando na área, ele afirma ter precisado modificar diversas vezes o percurso profissional para acompanhar as transformações tecnológicas.

Formação para um novo cenário

Se a inteligência artificial passa a integrar o conjunto de ferramentas disponíveis para a criação, ela também impõe desafios à formação universitária em Artes. Para Borgato, os futuros profissionais precisam aprender a utilizá-la criticamente e, ao mesmo tempo, buscar uma identidade artística própria, mesmo quando trabalham com tecnologias digitais.

Mais do que dominar uma plataforma ou aprender a escrever comandos, a formação precisa preservar justamente os elementos que, na avaliação do pesquisador, continuam distinguindo o processo artístico humano.

Depois de dois anos observando as possibilidades e os limites da inteligência artificial, Borgato não acredita que a tecnologia vá provocar uma ruptura capaz de alterar completamente o significado da arte, do artista ou da criatividade.

“Não vejo grandes mudanças. A arte atravessa os tempos mantendo sua aura poética e estética, que encanta e registra a história da humanidade com sensibilidade e criatividade”, conclui.

Texto: Vanessa Amin

Imagens: Sérgio Borgato / Léo Yutaka Okishima Hashimoto / Gemini / Nano Banana